TITLE: Os Quatro Mares no Shanhai Jing

TITLE: Os Quatro Mares no Shanhai Jing EXCERPT: Os Quatro Mares no Shanhai Jing

Os Quatro Mares no Shanhai Jing: Limites do Cosmos Antigo Chinês

O Shanhai Jing 山海经 (Shānhǎi Jīng, Clássico das Montanhas e Mares) apresenta uma das estruturas cosmológicas mais fascinantes da literatura chinesa antiga—um mundo delimitado e definido por quatro grandes mares. Esses mares não são apenas corpos d'água no sentido geográfico; eles representam as bordas conceituais do universo conhecido, os espaços liminais onde a civilização encontra o caos, e os lares de seres extraordinários que desafiam nossa compreensão da ordem natural.

A Estrutura Cosmológica dos Quatro Mares

Na visão de mundo apresentada pelo Shanhai Jing, os quatro mares—东海 (Dōnghǎi, Mar Oriental), 西海 (Xīhǎi, Mar Ocidental), 南海 (Nánhǎi, Mar Meridional) e 北海 (Běihǎi, Mar Setentrional)—formam uma fronteira quadrilateral ao redor da massa terrestre central onde a humanidade habita. Essa concepção reflete a compreensão antiga chinesa do espaço como fundamentalmente orientada em torno das direções cardeais, com cada direção possuindo seu próprio caráter, associações e habitantes sobrenaturais.

O texto descreve esses mares não como expansões uniformes de água, mas como reinos distintos, cada um com características, criaturas e significados únicos. Os mares desempenham múltiplas funções na cosmologia: são barreiras físicas que separam o centro civilizado da periferia selvagem, repositórios de recursos preciosos e fenômenos estranhos, e lares de deuses, espíritos e monstros que incorporam os poderes misteriosos da natureza.

O Mar Oriental: Portal para o Sol Nascente

O Mar Oriental ocupa um lugar de destaque no Shanhai Jing, talvez porque representasse a fronteira marítima mais acessível para os antigos chineses. O texto o descreve como o reino onde o sol começa sua jornada diária, tornando-o um lugar de começos, renovação e significância celestial.

Geografia Mítica e Ilhas

Dentro do Mar Oriental, o Shanhai Jing localiza várias ilhas e territórios míticos. Notavelmente, menciona 度朔山 (Dùshuò Shān), uma montanha que se ergue do mar onde cresce um grande pessegueiro. Esta árvore, segundo o texto, se estende por três mil li 里 (uma unidade tradicional chinesa de distância), e serve como o lar de dois guardiões divinos, 神荼 (Shéntú) e 郁垒 (Yùlěi), que protegem contra espíritos malignos. Esse mito influenciaria mais tarde as tradições do Ano Novo Chinês, onde imagens desses guardiões são colocadas nas portas para proteção.

O texto também descreve 流波山 (Liúbō Shān, Monte Liubo), localizado a sete mil li no Mar Oriental. Diz-se que esta montanha contém vastas quantidades de pedras preciosas e metais, e é habitada por uma criatura chamada 夔 (kuí)—uma besta de uma perna que se assemelha a um boi, cuja aparição é acompanhada por vento e chuva, e cujo rugido soa como trovão. Diz-se que o Imperador Amarelo 黄帝 (Huángdì) capturou essa criatura e fez um tambor de sua pele, cujo som poderia ser ouvido a quinhentos li.

Criaturas das Águas Orientais

O Mar Oriental está repleto de vida marinha extraordinária. O texto descreve peixes de proporções enormes, incluindo o 鲲 (kūn), uma criatura tão vasta que seu tamanho é medido em milhares de li. Este peixe seria mais tarde imortalizado no Zhuangzi 庄子, onde se transforma na enorme ave 鹏 (péng, Peng), embora essa narrativa de transformação não apareça no Shanhai Jing em si.

Outra criatura notável é o 陵鱼 (língyú), descrito como tendo um rosto e mãos humanos, com o corpo de um peixe. Ele emite sons semelhantes a um pato-mandarim e é considerado um presságio—sua aparição antecipa colheitas abundantes. Tais criaturas borram as fronteiras entre humano e animal, sugerindo a natureza liminal dos mares como espaços onde as categorias normais se desintegram.

O Mar Ocidental: Reino do Sol Poente e dos Imortais

Se o Mar Oriental representa começos, o Mar Ocidental incorpora finais, transformação e a busca pela imortalidade. Este mar está associado ao sol poente e contém alguns dos locais mitológicos mais significativos na cosmologia chinesa.

As Montanhas Kunlun e Geografia Divina

Embora tecnicamente uma cadeia de montanhas, 昆仑山 (Kūnlún Shān, Monte Kunlun) está intimamente conectado com o Mar Ocidental na geografia do Shanhai Jing. O texto descreve Kunlun como a capital terrena do 天帝 (Tiāndì, o Imperador Celestial), um eixo cósmico que conecta o céu e a terra. Diz-se que a montanha é guardada por 陆吾 (Lùwú), uma divindade com corpo de tigre, nove caudas, rosto humano e garras de tigre.

A região do Mar Ocidental também abriga o 弱水 (Ruòshuǐ, Água Fraca), um corpo d'água misterioso tão carente de flutuabilidade que até penas não conseguem flutuar sobre ele. Esta água paradoxal serve como uma barreira natural que protege os espaços mais sagrados da intrusão mortal, aparecendo em literatura posterior como um obstáculo intransponível que apenas os seres mais espiritualmente avançados podem cruzar.

A Rainha Mãe do Oeste

Talvez a figura mais significativa associada à região do Mar Ocidental seja 西王母 (Xīwángmǔ, a Rainha Mãe do Oeste). O Shanhai Jing a descreve como habitando a região de Kunlun, embora sua representação no texto seja bastante diferente das descrições mais refinadas que surgiriam depois. Aqui, ela é descrita como tendo uma forma humana, mas com uma cauda de leopardo, dentes de tigre e um talento para assobiar. Ela controla as forças de peste e punição, representando os aspectos selvagens e indomáveis do poder divino.

Seu reino contém os lendários 蟠桃 (pántáo, pêssegos planos) que concedem imortalidade—embora esse detalhe específico seja mais proeminente em textos posteriores, o Shanhai Jing estabelece seu domínio como um lugar onde as fronteiras entre mortalidade e imortalidade se tornam permeáveis.

O Mar Meridional: Calor, Abundância e Estranhas Transformações

O Mar Meridional representa a direção do fogo, do verão e do crescimento no pensamento cosmológico chinês. As descrições desta região no Shanhai Jing enfatizam calor, abundância e criações estranhas que desafiam a lógica.

Sobre o Autor

Especialista em Mitologia \u2014 Mitólogo comparativo focado no Shanhai Jing.

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