Montanha Kunlun: O Eixo do Cosmos Chinês

Kunlun (昆仑 Kūnlún) é a montanha que sustenta o universo chinês. Não é uma metáfora — os textos antigos afirmam isso literalmente. Este é o axis mundi, o pilar cósmico, o lugar onde céu e terra se encontram e os deuses circulam como se fosse uma tarde de terça-feira. Toda mitologia precisa de um centro, e Kunlun é o da China.

A Montanha Que Não É uma Montanha

Aqui está o ponto que confunde a maioria dos leitores ocidentais: o Kunlun da mitologia tem quase nada a ver com as reais Montanhas Kunlun (昆仑山脉 Kūnlún Shānmài) no oeste da China. A verdadeira cadeia de montanhas Kunlun é impressionante o suficiente — se estende por mais de 3.000 quilômetros através de Xinjiang e Tibete — mas o Kunlun mitológico é algo completamente diferente.

O Shanhai Jing (山海经 Shānhǎi Jīng) descreve-a como uma montanha com nove portas guardadas pela besta kaiming (开明兽 kāimíng shòu), uma criatura com nove cabeças e rostos humanos. A montanha se ergue em camadas, cada nível mais sagrado que o anterior. No topo está o Palácio de Jade (玉楼 Yùlóu), e em algum lugar em suas encostas cresce o Pêssego da Imortalidade (蟠桃 Pántáo).

O Huainanzi (淮南子 Huáinánzǐ) vai mais longe, afirmando que Kunlun tem três níveis:

| Nível | Nome | Altura | O Que Há Aí | |--------|------------|--------------|--------------------------------| | Primeiro | Liangfeng 凉风 | 11.000 li | Ventos frescos, sem morte | | Segundo | Xuanpu 悬圃 | O dobro do primeiro | Jardins suspensos, imortalidade | | Terceiro | Palácio de Shangdi 上帝之宫 | O dobro do segundo | Residência da divindade suprema |

Onze mil li (里 lǐ) é aproximadamente 5.500 quilômetros. Direto para cima. Os antigos chineses não estavam brincando com sua geografia sagrada.

Xiwangmu: A Rainha Que Governa a Montanha

Você não pode falar sobre Kunlun sem mencionar Xiwangmu (西王母 Xīwángmǔ), a Mãe Rainha do Oeste. Ela é a residente mais famosa da montanha, e sua história é uma das transformações mais fascinantes na mitologia chinesa.

Nos textos mais antigos — o Shanhai Jing e os ossos oraculares da Dinastia Shang — Xiwangmu é aterrorizante. Ela tem a cauda de uma onça, dentes de tigre e um tocado chamado sheng (胜 shèng). Ela controla pragas e punições. Ela mora em uma caverna. Ela não é alguém que você gostaria de encontrar.

Durante a Dinastia Han (汉朝 Hàncháo, 206 a.C.–220 d.C.), ela havia sido completamente reinventada. Agora, ela é uma deusa bela e régia que realiza banquetes extravagantes em Kunlun, servindo pêssegos da imortalidade a convidados dignos. O Mu Tianzi Zhuan (穆天子传 Mù Tiānzǐ Zhuàn), um texto sobre a jornada lendária do Rei Mu de Zhou para o oeste, descreve sua visita a Xiwangmu em Kunlun e a troca de poesia com ela durante um banquete.

Essa é uma transformação bastante dramática — de demônio da peste a anfitriã de festas em aproximadamente cinco séculos.

O Endereço do Imperador de Jade

Mais tarde, a mitologia taoísta colocou o Imperador de Jade (玉皇大帝 Yùhuáng Dàdì) em Kunlun também, fazendo dela a sede de toda a burocracia celestial. Este é o lugar onde a corte celestial se reúne, onde os imortais se apresentam para o dever e onde a administração cósmica do universo é gerida.

O texto taoísta Zhen'gao (真诰 Zhēn'gào) do século IV...

Sobre o Autor

Especialista em Mitologia \u2014 Mitólogo comparativo focado no Shanhai Jing.

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