Houyi, o Arqueiro: O Herói Que Derrubou Nove Sóis

Dez Sóis e Um Arco

Houve um tempo, segundo a mitologia chinesa, em que dez sóis estavam pendurados no céu ao mesmo tempo. A terra rachou. Rios evaporaram-se. As colheitas queimaram até se tornarem cinzas. Monstros surgiram da selva queimada para se alimentar de humanos famintos. E um arqueiro — Houyi (后羿 Hòuyì) — pegou seu arco, preparou suas flechas com ponta vermelha e derrubou nove deles. Compare com Kuafu Persegue o Sol: O Gigante que Correu Atrás da Luz.

Esse não é um mito sutil. É, em sua essência, uma premissa de filme de ação — um herói solitário contra uma catástrofe cósmica, armado apenas com habilidade extraordinária e uma vontade inabalável de não assistir o mundo queimar. Mas, como todos os grandes mitos chineses, a história de Houyi contém camadas que uma leitura superficial perde completamente.

Os Dez Sóis

De acordo com o Shanhaijing (山海经 Shānhǎi Jīng) e textos relacionados, os dez sóis eram filhos de Dijun (帝俊 Dìjùn), uma divindade suprema, e Xihe (羲和 Xīhé), a deusa solar. Todos os dias, um sol deveria cruzar o céu enquanto os outros nove repousavam nos ramos da Árvore Fusang (扶桑 Fúsāng), uma colossal árvore no oceano oriental.

Esse sistema funcionou perfeitamente — até o dia em que os dez sóis decidiram aparecer simultaneamente. Os textos não explicam o porquê. Talvez estivessem entediados. Talvez fossem rebeldes. Talvez, como crianças em todo lugar, quisessem apenas brincar juntos e não se importassem com as consequências.

As consequências foram catastróficas. O Huainanzi (淮南子 Huáinánzǐ) descreve a devastação em termos vívidos: as colheitas queimaram, a terra se rachou e terríveis bestas surgiram de seus esconderijos. O Yayu (猰貐 yàyǔ), um monstro devorador de homens, o Jiuying (九婴 jiǔyīng), uma criatura de fogo e água de nove cabeças, e o Dafeng (大风 dàfēng), um pássaro de tempestade gigante, todos apareceram para aterrorizar a humanidade durante o caos.

O Arqueiro Assume o Controle

O Imperador Yao (尧 Yáo), um dos lendários reis-sábios, suplicou a Dijun para chamar seus filhos de volta. Dijun enviou Houyi do céu com um arco e flechas divinas — originalmente pretendendo que Houyi apenas intimidasse os sóis a se comportarem. Mas Houyi avaliou a situação no solo, viu o sofrimento e tomou uma decisão: intimidar não era suficiente.

Ele ergueu seu arco e derrubou o primeiro sol do céu. Ele caiu na terra como um corvo de três patas (三足乌 sānzúwū) — porque na mitologia chinesa, cada sol continha um corvo dourado. Derrubou um segundo. Depois um terceiro. A terra começou a esfriar. Ele continuou atirando.

De acordo com uma versão da história, o Imperador Yao secretamente removeu uma flecha do aljava de Houyi — porque se Houyi derrubasse todos os dez sóis, o mundo seria mergulhado na escuridão permanente. Houyi derrubou nove sóis e, não encontrando a décima flecha, deixou a última no céu. Esse é, como explica o mito, nosso sol — o único sobrevivente de uma massacra divina, permitido viver apenas porque um imperador foi um pouco mais astuto do que um arqueiro.

A Recompensa do Herói: Exílio

Aqui é onde o mito se transforma de triunfo em tragédia. Dijun não ficou grato. Seus nove sóis...

Sobre o Autor

Especialista em Mitologia \u2014 Mitólogo comparativo focado no Shanhai Jing.

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