Correndo em Direção ao Impossível
O mito de Kuafu (夸父 Kuāfù) é uma das histórias mais curtas e devastadoras da mitologia chinesa. Um gigante decide perseguir o sol. Ele corre o dia inteiro. Fica com sede. Ele seca o rio Amarelo. Ele seca o rio Wei. Vira-se para o grande lago Daze. Morre antes de alcançá-lo. Seu cajado, deixado de lado na morte, se transforma em uma floresta de pessegueiros.
Essa é a história toda. O Shanhaijing (山海经 Shānhǎi Jīng) a conta em menos de cinquenta caracteres. E esses cinquenta caracteres têm assombrado a literatura chinesa por mais de dois mil anos.
O Texto
O "Clássico das Regiões Além dos Mares" do Shanhaijing registra: "Kuafu correu contra o sol. Quando estava a ponto de alcançá-lo, ficou com sede e foi beber do rio Amarelo e do rio Wei. Os rios não foram suficientes. Ele seguiu para o norte para beber do Grande Lago. Antes de chegar, morreu de sede no caminho. Abandonou seu cajado, que se tornou a floresta de Deng."
O trecho é notável pelo que não inclui: nenhuma explicação de por que Kuafu perseguiu o sol, nenhum comentário moral, nenhuma intervenção divina, nenhum resgate. O Shanhaijing simplesmente registra o evento — um gigante correu, bebeu, morreu — como se estivesse catalogando uma formação geológica. A floresta de pessegueiros que ele deixou para trás é tratada como o resultado mais notável, não sua morte.
Por Que Ele Correu?
O texto não diz por que Kuafu perseguiu o sol, e esse silêncio gerou dois mil anos de interpretação.
A leitura mais comum é que Kuafu representa a ambição humana ultrapassando seus limites. Ele perseguiu o impossível e foi destruído por isso. Essa interpretação alinha-se com uma visão confuciana que valoriza a moderação e o conhecimento do próprio lugar — o orgulho do gigante levou à sua ruína, e a história serve como um conto de advertência.
Mas há outra leitura, igualmente válida e talvez mais interessante: Kuafu sabia que não poderia pegar o sol, e correu mesmo assim. Nesta versão, o mito não é sobre fracasso, mas sobre a nobreza de tentar o impossível. Kuafu não persegue o sol porque é estúpido. Ele o persegue porque alguém tem que tentar.
A expressão "Kuafu perseguindo o sol" (夸父追日 Kuāfù zhuī rì) tornou-se um idioma chinês, e seu significado muda dependendo de quem a usa. Para uma pessoa cautelosa, significa "não ultrapasse seus limites." Para uma pessoa ambiciosa, significa "mire no impossível."
O Corpo do Gigante
Kuafu pertence a uma raça de gigantes no Shanhaijing. Seu clã, o povo Kuafu, habita as regiões mais ao norte do mundo mitológico. Eles são descritos como seres enormes — poderosos o suficiente para beber rios inteiros, altos o suficiente para atravessar montanhas com passos largos. Sua estatura gigantesca conecta-os a um tema mais amplo no Shanhaijing: quanto mais longe você viaja do centro da civilização, mais estranhos e extremos os habitantes se tornam.
Gigantes na mitologia chinesa funcionam de maneira diferente dos gigantes nas tradições ocidentais. Na mitologia nórdica, gigantes são inimigos dos deuses — caóticos...